Às vezes você encontra alguém que te rouba, te seqüestra. E
não é seqüestro físico não. É seqüestro sentimental, do coração. Às vezes - às
vezes não, sempre – seqüestros não são bons, e nesse caso não seria diferente. Às
vezes você encontra alguém que te suga tão de leve, que na hora que você
percebe, mais da metade de você já se foi. Um vazio preenche o espaço oco e
você jura não entender o porquê, mas no fundo sabe a verdade. De vez em quando
a gente nem percebe quando acontece, mas às vezes a gente se deixa ser roubado e na
hora que percebe o prejuízo, passa a arrepender amargamente por isso.
Aí você começa a querer lutar. Volta a fazer o que fazia
antes, corre contra o tempo, contra a vontade, contra o orgulho e às vezes você
custa a conseguir. Você tem vontade de ligar para o seqüestrador, para o ladrão
que te levou a alma, que levou o melhor que você tinha, mas você resiste, resiste,
desiste e liga. E percebe como é engraçado como tudo fica ainda mais vazio
depois que cede à vontade que você nem sabe de onde vem – afinal, ele não levou
tudo? De repente você começa querer fugir, fugir dele, do pouco que te resta. Você precisa voltar, sabe que precisa se livrar desse cativeiro que deixou ser
construído na sua mente, sabe que precisa da razão, mas ela, incompleta, não é
capaz de agir. Porque, acredite: razão sem o desequilíbrio do coração também
não costuma funcionar. E às vezes você começa querer deixar o desespero bater,
mas vai lá e pega um livro, faz de conta que ainda sabe fazer o que gosta e
passa a analisar criticamente a situação: Ele conseguiu. Se esse não era seu
objetivo – porque, aliás, nunca deve ser! – ele chegou chegando. O que era para
ser saudável virou pedra e começou a te machucar, e você passou a sentir que é
só você que está sendo machucada também. Percebe que essa não é a primeira vez
que você se deixa levar, essa não é a primeira pessoa que te rouba e, se for ou
não, você precisa fazer alguma coisa.
Um drible ali, um tapa na cara que a vida te dá aqui e com
muita calma, você volta a ser você. Talvez você ainda esteja com a pessoa,
talvez não. Se estiver, que você tenha aprendido a moral da história, que, por
sinal, agora sim pode ser um conto de fadas. Se não estiver, eu te garanto que
os machucados logo virarão cicatrizes e que um belo dia você irá olhar nos
olhos dele e pensar: “Estou grata por me ter de volta e ainda mais apaixonada
por mim mesma. Obrigada.”
