Ninguém nunca me entendeu. Desconfiei que ninguém entenderia
mesmo. Prossegui. Mas confesso que foi muito mais difícil prosseguir sem você.
Doeu. Chorei insanamente por noites seguidas sem sono. Chorei até me esvaziar.
Chorei até não te ver mais no espelho. Chorei até começar a derreter de uma
velha pessoa e construir um novo eu.
Suspirei. Suspirei na sala, no quarto, na cozinha, no
banheiro e durantes os filmes melosos de domingo à noite. Suspirei na rua. Na
praça que a gente sempre ia. No cidade vizinha que você adorava passear.
Sobrevivi. Por mim. De você. Renasci em cima de um sofrimento que doeu. Me
desfiz de velhos hábitos, antigas palavras e construí um novo caminho.
Você deixou marcas. Gosto de lembrar daquela cicatriz que
deixou no meu braço quando o copo de vidro caiu da sua mão e esbarrou em mim.
Gosto da cicatriz que deixou do lado do meu coração. Gosto do gosto de mel que
deixou na minha boca. Gosto do fato de ter me deixado para traz. Gosto de ter
gostado de você.
Não foi fácil. Eu disse. Não foi. Ardeu enquanto coube
ardor. Chorei enquanto coube lágrimas. Vaguei pelas ruas enquanto consegui te
encontrar. Nunca te encontrei. Nem na porta da sua casa, nem naquela praça, nem
no cinema. Nem me importava te encontrar com outra pessoa. Nem me importava
olhar nos seus olhos e não ter uma resposta sequer. Doeu não te ver nunca.
Estranhei cada passo sem você. Mas superei. Simplesmente te
deixei. Superei.
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