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| Foto: Reprodução/We heart it |
Vou te chamar de Paulo. Acho que
combina com os olhos azuis e os dois metros de altura que trombaram em mim
enquanto eu entrava no ônibus. Acho que combina com o rapaz loiro que deu um
sorriso e me cumprimentou como se eu fosse uma velha conhecida depois da gente
ter andado de ônibus juntos umas duas ou três vezes. Vou te chamar de Paulo,
porque você não me disse seu nome. Vou te chamar de Paulo, porque sumiu depois
de dois ou três dias pegando o mesmo ônibus junto comigo e sorrindo toda vez
que olhava para o meu rosto. Vou te chamar de Paulo, querido. Porque, como
muitos, você armou o circo, fez a festa e foi embora. Sem ao menos se
apresentar.
Eu pensei que te encontraria no
ponto de ônibus durante toda aquela semana que você não apareceu. Imaginei você
me esperando no desembarque, porque você viu que todos aqueles dias a gente
desceu junto naquele ponto de ônibus sem nem trocar uma palavra. Imaginei que
tivesse percebido que estou no mesmo lugar, na mesma hora, todos os dias. E,
diferentemente de você, eu não deixei de aparecer simplesmente.
Da última vez que a gente se
encontrou, você apareceu de mala e olhou para mim como se estivesse despedindo.
Talvez fosse um turista. Não sei. Talvez alguém perdido vagando de cidade em
cidade. Andando de coração em coração. Mas eu queria tanto te encontrar de
novo, que não desconfiei que seu sorriso – o mais forte depois de todos aqueles
dias – era na verdade uma despedida singela para uma pessoa que nem sequer pode
te conhecer.
Paulo, eu queria ter descoberto o
seu nome de verdade. Queria ter descoberto que tipo de música escuta, quais
filmes assiste e se é tão apegado a livros quanto eu. Queria que tivesse contado se era mesmo um
turista ou se apenas procurava um coração para se abrigar. Se você tivesse se
apresentado, eu teria perguntado porque é que você não fica aqui de uma vez.
Você podia arrumar a casa, enquanto organizava o coração para você.
Mas, Paulo, você se foi, não é?
Eu continuo parando todos os dias, no mesmo lugar e na mesma hora. Continuo
fazendo o mesmo trajeto de sempre. Na sua volta, eu ainda estarei lá. Ainda
posso te chamar de Paulo?
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