Desculpe-me, mas eu preciso dizer. Não carrego raiva, rancor
ou nada parecido. Só acho que eu poderia ter me entregado menos. Eu ainda não
conhecia seu poder de manipulação, seu poder de convencimento e acabei dando
conta dele tarde demais. Você ultrapassava minhas curvas, não seguia minhas
regras, chegava ao meu limite e eu achava graça disso tudo. Você delicadamente
tampava meus olhos. Não estou te acusando de mentiroso, mas você me poupava. E
eu me poupava mais ainda por achar que você também estaria se poupando por nós
dois. Nunca esteve.
Foi triste descobrir isso. Perceber que as manhãs de sábados
enrolados naquele edredom eram só para me impedir de sentir o cheiro de outros
perfumes que estava na roupa foi doloroso. Foi cruel.
Nunca te exigi fidelidade, nunca te obriguei a me dizer a verdade. Você
escolheu esse caminho e me fez escolher também. Eu teria aceitado se tivesse me
proposto que eu continuasse sendo somente minha. Teria aceitado se dissesse que
ainda continuaria a curtir outras mulheres na minha ausência. Eu aprendi a ser
infiel comigo mesma. E eu teria conhecido outras bocas, outros lençóis sem o
menor remorso.
Mas não, aquele seu charme me deixava cega. Aquelas suas
mensagens no auge da noite dizendo que você já estava em casa àquela hora
começaram a fazer sentido quando percebi que você realmente estava em casa, na
casa delas. Os “eu te amo” tão bem programados, sempre as quartas à noite
depois de duas horas de ligação só para me amolecer e me impedir de perceber
que as suas quintas já estavam ocupadas por alguém que não era eu.
Não julgo seus erros. Não julgo suas quase-não-mentiras. Eu
julgo a minha cegueira, meus lapsos de quase-amor. Você aproveitou da garota
ingênua enquanto pode, mas se esqueceu que ao invés disso, poderia ter
aproveitado de uma grande mulher. Esqueceu que diferentemente de tudo, eu teria
entrado no seu jogo e criado minhas próprias verdades, que você,
conscientemente, não me permitiu viver.