Levantar da cama era quase um sacrifício. Quase. O frio lá
fora a incomodava muito, mas o coração quase gelando era o que a preocupava
ainda mais. Transbordava sem dizer, reclamava sem necessariamente falar. Quem sabia, se recusava a ajudar e ela optava
por quase sempre a ficar calada.
A garganta ardia toda vez que o fim da tarde chegava. O
estômago doía regularmente e sempre que percebia, sentia seu corpo gritar. Ela
sabia que a dor nas costas era exatamente porque os sentimentos andavam pesados
demais para ela suportar. As lágrimas escorriam sem ela ao menos perceber e
aqueles calafrios eram quase que insuportáveis.
Gritar por ajuda nunca foi seu forte. Falava como podia, do
jeito que queria. Quando o tempo deixou de existir, a leveza desapareceu e o limite
foi chegando cada vez mais perto. Ela sabia que ainda não tinha chegado no seu
máximo e isso é o que mais a atormenta: saber que ainda pode existir muito mais.
Quando já não conseguia completar uma frase sem conseguir
pensar em outra coisa, percebeu que o cansaço estava além do que deveria. De
manhã, olhou discretamente para os calmantes ao lado da cama e jamais imaginou
que era aquilo que tomaria naquela altura da vida. Acordou para mais um dia.
Respirou fundo, agradeceu pela chance de recomeçar e (sobre)viveu.
