O jogo virou e eu estou de ponta-cabeça. A confusão se
inverteu e agora, eu me encontro completamente muda a mercê de todos os
acontecimentos. Porque isso nunca fez parte do que um dia eu planejei. Isso
fazia parte do que você um dia quis por nós dois. E eu, pobre de mim, sempre
estive tão firme no chão que não me permiti sentir um dia sequer. E se senti,
foi completamente contra meu querer. Aliás, senti porque um dia quis que você
sentisse por nós dois. Amar por dois deve doer, né?
Sinto muito se é assim que tem que ser. Você sempre soube
que se não fosse pra me fazer voar, então era melhor você nem tirar meus pés do
chão. Por pura teimosia, foi o que fez. Abraçou-me tão forte e nem me presenteou
com asas. Usei das tuas enquanto pude. E agora, que não posso mais, não sei o
que fazer. Você levou o que de melhor eu mantive e em troca deixou toda sua
saudade. Saudade, aliás, de uma vida que viveu sozinho (ou por dois, como
preferir.).
Sinto muito por saber que teve que ser assim. Sabe como é,
me faltou estrutura e você, em contrapartida, nunca se preocupou com tal
condição. Diferenças a parte, você é o culpado. Dizer que simplesmente agiu
sozinho nesse complô que nos destruiu pouco a pouco é melhor do que assumir a
condição de que fui responsável por jogar ambos em um buraco sem volta. Não foi
assim. Não quero acreditar que foi assim.
Sem mais lástimas ou pedidos. Já era hora de você ir.
De um anjo com asas
cortadas, Cady
